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domingo, 23 de agosto de 2015


A  hora  do Espanto

Venho observando ao longo de alguns anos o tema A HORA DO DEVER  DE CASA como a grande angústia de muitas famílias. Não só porque esse assunto envolve as responsabilidades de cada um mas também porque o assunto impõe novas posturas diante do tema. Em minha Devolutiva Psicopedagógica da Linguagem organizo assim algumas sugestões em relação a esse tema:

-  A Instituição escolar deve organizar especialmente para a  criança com dificuldades escolares exercícios sempre antecipados e planejados de Leitura e compreensão. Planejados aqui significam que os professores devem entregar os textos a serem lidos bem antes do prazo de cobrança, oferecendo um tempo de estudo  à criança, seja com o professor de reforço especializado  ou um professor-tutor. Essa atitude simples do Educador em relação aos textos exigidos diminui o sofrimento da criança com dificuldades em Leitura ou em Escrita e ao mesmo tempo previne a angústia em relação ao aprendizado em sala de aula. Lembrando aqui que o Educador deve sempre facilitar e  favorecer a aprendizagem escolar e o exercício da reflexão sobre os objetivos do dever   de casa devem ser diários.

- Mãe e  pai não  devem ajudar nos deveres de casa. Em todo caso, se eles não tiverem formação para tal, esqueçam.  Em minha experiência enfrento casos de crianças que esperam os pais chegarem do trabalho para  fazer o .... dever de casa!! Crianças com dificuldades de Leitura e escrita ou com uma Alfabetização mais tardia necessitam de ajuda especializada. Não podemos aceitar que pais percam o pouco tempo que lhes sobra do dia com seus filhos em brigas e cobranças  na hora ... do dever de casa. E no final de tudo,quando os filhos procuram os pais,  eles já se encontram estressados e cansados por causa da frustração que um dever de casa mal resolvido pode promover. Os pais devem acompanhar o aprendizado escolar observando os cadernos e livros e se detectadas dificuldades, procurar imediatamente a escola e se for o caso, uma ajuda especializada. 

- Dever de casa é responsabilidade da criança. O objetivo do dever de casa é promover a autonomia da criança em relação ao que aprendeu  em sala de aula. Se a criança não consegue fazer o dever de casa  sozinha, algo não vai bem. Se a criança precisa de ajuda constante para compreender e finalizar exercícios,  entramos com três hipóteses: ou existe uma dificuldade individual, uma metodologia  educacional equivocada  ou uma tensão emocional. Em qualquer caso deve-se acionar a Escola e se for o caso,  buscar uma Avaliação Psicopedagógica.
Sobre esse tema existe alguma bibliografia que pode ajudar. O texto acima não aborda TODAS as questões relacionadas ao assunto mas estamos aqui para  esclarecer as dúvidas. 

domingo, 9 de agosto de 2015

AVALIAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA E A POSTURA DO PSICOPEDAGOGO/A


       A avaliação psicopedagógica é um dos momentos mais importantes da prática psicopedagógica. Este processo investigativo objetiva fazer um recorte de como a criança está "funcionando" naquele momento de sua vida, seja na área cognitiva, psicomotora, sócio-afetivo e linguagem. 

A maioria das queixas escolares está focada na leitura, escrita e matemática, mas o olhar investigativo psicopedagógico deve ser o de saber o que está por trás dessas dificuldades. É absolutamente imprescindível considerar os aspectos padrões para cada idade, lembrando que o diagnóstico só é útil se for visto como algo mais que simplesmente rotular e estigmatizar. 
              
           Devem-se manter duas linhas paralelas de raciocínio clínico: uma linha diagnóstica baseada numa cuidadosa descrição evolutiva dos sintomas e dados clínicos e outra linha, etiológica, que são informações fornecidas pela família, pela escola ou por outros profissionais envolvidos. De posse dessas informações, acrescidos da observação clínica do profissional em seus encontros com o pacientes, consegue-se uma formulação hipotética dos possíveis fatores que podem estar comprometendo o desempenho da criança nas várias esferas da sua vida.

            A habilidade clínica influencia bastante no resultado de um diagnóstico psicopedagógico. O olhar e a escuta do profissional faz toda diferença. A escuta não é só ouvir a demanda, vai mais além, significa apreender e compreender os sentimentos, o sofrimento, as expectativas e principalmente o não-dito (não revelado).  A escuta possibilita dar valor e sentido à palavra, envolve reflexão e está intimamente atrelada ao olhar (olhar que acolhe!).

            O mais importante é que a escuta seja livre de juízos, pré-julgamentos ou críticas. O paciente e sua família precisam se sentir acolhidos, para que se sintam seguros e encorajados a revelar-se. O posicionamento empático por parte do profissional, não qualificando nem desqualificando o discurso alheio é primordial para a construção de um vínculo afetivo positivo. 

              O momento da avaliação é único tanto para o profissional, quanto para a família e para o próprio paciente. O tipo vínculo estabelecido com as partes vai influenciar o manejo e o resultado. Dependendo do grau de envolvimento e comprometimento, se negativo, fica praticamente impossível chegar ao seu término, sendo mais sensato se valer da ética e suspender a avaliação e ou encaminhar para outro profissional. Mantendo a avaliação o resultado não será condizente com a verdade.
            
        Cautela é palavra de ordem quanto ao desejo de ajudar. Se o objetivo  e esforços é colaborar para a saúde física, saúde psíquica e sucesso acadêmico, ou ainda, ajudar pessoas a serem "socialmente", "culturalmente e moralmente ajustadas", faz-se muito necessário se atentar para o próprio poder de manipulação e imposição dos próprios valores e verdades, cujo risco é despotencializar o paciente, culpabilizar a família e responsabilizar os conteúdos e a metodologia escolar.  

             Outro momento importante é abandonar a imagem que o faz ser imprescindível para o cliente. Não se tem todo esse poder redentor e curativo que a família, por exemplo, acha que ele tem. O profissional pode não conseguir libertar as crianças de todos os seus problemas, nem conseguir com que a família ou a escola revejam suas contribuições para os comportamentos inadequados e/ou insucessos escolares. Importante conscientizar-se de que não detém a competência absoluta e que existem outros profissionais que podem ser melhores e mais experientes. Importante saber que nunca se terá a exclusividade sobre os pacientes!  
         
           O psicopedagogo deve facilitar a aliança entre seu lado saudável e o cliente, mas para isso necessita primeiro ter conhecimento de si, discernindo o que é seu e o que é do seu paciente, sempre com o objetivo de promover o desenvolvimento e a satisfação dos interesses de quem o procura, não os seus! Jung dizia que somente o profissional apaixonado e envolvido em sua própria vida conseguira ajudar seus pacientes a encontra-se e encontrar seus caminhos. Mais ainda, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui.

              O psicopedagogo precisa ser autêntico, reconhecer seus limites e ser sensível ao sofrimento de quem o procura. Sair da posição de onipotência e  se colocar por inteiro na relação e no processo que se instaura. Carl Rogers confirma ao dizer que o profissional além de ser autêntico precisa ser capaz de se abandonar para compreender seu cliente.  

                O fato é que não é fácil está do lado cá, ser profissional da escuta, do olhar clínico e da palavra! Não é fácil sustentar uma posição que nos coloca o tempo todo dentro dos conflitos, dentro do sofrimento, nos desejos, na angústia alheia, e nada podemos fazer senão adotar uma postura de acolhimento, acreditar em nossa competência e zelar pela própria saúde mental através de supervisão e análise. 

             Não basta um vasto conhecimento teórico se a postura adotada distanciar o profissional de seu paciente! De que adianta medir o conhecimento adquirido, colocar um número para servir de rótulo, se não se consegue inferir como ele pensa, como se movimenta na busca de suas respostas e não regozija com seus erros! Se o profissional não conseguir se aproximar afetivamente de seu paciente, nada mais pode fazer por ele. 

                 "Psicopedagogia não é para quem quer, mas para quem pode" já dizia Maria Lucia Weiss, e eu concordo! É para quem pode se doar sem se perder, é para quem acolhe sem se misturar, é para quem sabe lutar por uma causa que não é a sua, para quem se permite caminhar junto e deixar que apenas o outro receba todos louros da vitória! Ser um profissional da psicopedagogia é ser ativo, inquisidor, criativo, justo, libertador. Que não se acomoda, busca mudanças tendo como ponto de partida si mesmo, com novas técnicas, pesquisas e atendimento humanizado e personalizado. 

                 O bom psicopedagogo torna-se capaz de ser o que é na medida que se aceita como indivíduo, com habilidade de (re)fazer ou (re)significar sua história, com capacidade de sensibilizar-se com os sentimentos do outro. Desse encontro com o outro, se reconhece sabedor de suas fraquezas e limites, percebendo-se finalmente como ser humano, não como um Deus!